Com a Quarta-feira de Cinzas começa a Quaresma, tempo de penitência e de renovação interior para preparar a Páscoa do Senhor. Durante quarenta dias, a liturgia da Igreja nos convida sem cessar a purificar a nossa alma e a recomeçar de novo. Assim nos exorta a primeira leitura:
Diz o Senhor todo-poderoso: Voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos. Rasgai o coração, e não as vestes; voltai para o Senhor, nosso Deus, porque ele é benigno e compassivo... (Jl 2, 12).
O Senhor nos chama a desapegar-nos das coisas terrenas para voltar a Ele. Quer que deixemos o pecado, que envelhece e mata, e retornemos à Fonte da Vida e da alegria. Essa é a conversão que deve começar a cada Quarta-feira de Cinzas. Por isso, o padre, ao colocar as cinzas sobre a nossa testa, nos ordena:
Convertei-vos e crede no Evangelho.
Precisamente, converter-nos significa estar dispostos a empregar todos os meios para viver como Deus espera que vivamos, ser sinceros conosco mesmos, não tentar servir a dois senhores, amar a Deus com toda a alma e afastar da nossa vida qualquer pecado deliberado. Implica um coração reto e enraizado no Senhor. E isso em meio às circunstâncias do dia a dia.
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Quando começa a Quaresma?
A Quaresma começa na Quarta-feira de Cinzas e termina na Quinta-feira Santa, antes da Missa da Ceia do Senhor. As datas concretas mudam a cada ano porque dependem da data da Páscoa, que não é fixa no calendário.
O início da Quaresma é marcado pela Quarta-feira de Cinzas, dia em que os fiéis recebem a imposição das cinzas como sinal de conversão e penitência. A partir desse momento, a Igreja inicia um tempo de preparação espiritual que se estende por quarenta dias.
A Quaresma não inclui a Semana Santa inteira. Liturgicamente, termina na Quinta-feira Santa à tarde, quando começa o Tríduo Pascal. Por isso, embora muitas pessoas associem a Quaresma a toda a Semana Santa, trata-se de momentos litúrgicos distintos.
Por que a Quaresma começa numa quarta-feira?
A Quaresma começa numa quarta-feira porque precisa completar simbolicamente 40 dias de preparação antes da Páscoa, e, para que esse número seja exato, deve começar antes do primeiro domingo da Quaresma.
A Quaresma tem como modelo os 40 dias que Jesus passou no deserto antes de começar sua vida pública. No entanto, os domingos não são contados como dias penitenciais estritos, porque cada domingo é sempre celebração da Ressurreição. Por isso, se a Quaresma começasse num domingo, não se completariam os 40 dias efetivos de penitência. Assim, para que a conta chegue a 40, o tempo quaresmal começa quatro dias antes do primeiro domingo da Quaresma: a Quarta-feira de Cinzas. Desse modo se alcança o número simbólico de 40 dias (sem contar os domingos) até a Quinta-feira Santa.
Qual é o significado da cruz de cinzas na testa?
O sentido espiritual das cinzas
As cinzas nos recordam uma verdade fundamental: dependemos absolutamente de Deus, nosso Criador. Este símbolo evoca o relato do Gênesis. Por um lado, a criação , em que o Senhor modelou o homem do pó da terra. E, por outro, a sentença depois do pecado original:
Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado. Porque és pó, e ao pó hás de voltar! (Gn 3, 19)
Essa consciência do que somos (pó) não pretende provocar desesperança, mas, ao contrário, mover-nos ao arrependimento e à humildade. Embora sejamos vasos de barro, fracos e pecadores, Jesus veio redimir-nos por sua Paixão e Morte. Portanto, a cinza é um símbolo de morte que, paradoxalmente, aponta para a vida; é o reconhecimento da miséria pessoal diante da imensidão da misericórdia divina.
O que a Bíblia diz sobre a cruz de cinzas?
O uso das cinzas como expressão da atitude interior do homem diante de Deus aparece em numerosas passagens do Antigo Testamento e com diversos significados. No judaísmo antigo, cobrir-se de cinzas era um sinal natural de luto e um rito penitencial estabelecido.
Diante do decreto do rei Assuero para exterminar todos os judeus, o povo se vestiu de saco e se cobriu de cinzas:
Quando Mardoqueu soube o que se passara, rasgou suas vestes, cobriu-se de saco e de cinza e percorreu a cidade dando gritos de amargura, até chegar diante da porta do rei, pois ninguém podia entrar por ela vestido de saco.
Em cada província, à medida que chegavam a ordem do rei e o seu edito, havia grande luto entre os judeus, com jejuns, lágrimas e lamentações. E o saco e a cinza serviram de leito para muitos. (Est 4, 1-3)
Quando o profeta Jonas anunciou, por ordem de Deus, que Nínive seria destruída, os ninivitas e seu rei fizeram penitência para alcançar a misericórdia divina.
Os ninivitas creram em Deus, proclamaram um jejum e vestiram-se de saco, desde o maior até o menor.
Quando a notícia chegou ao rei de Nínive, ele se levantou do seu trono, tirou o manto real, cobriu-se de saco e sentou-se sobre a cinza. (Jn 3, 5-6)
No Novo Testamento, embora Jesus advirta contra a ostentação da penitência para ser visto pelos homens, não invalida as práticas exteriores, mas exige que elas sejam reflexo de um verdadeiro desejo de conversão.
A liturgia da Quarta-feira de Cinzas integra estas duas dimensões: o sinal visível das cinzas e a exigência de uma retidão de intenção que só Deus vê no segredo.
O que se queima na Quarta-feira de Cinzas?
Um aspecto de profunda riqueza simbólica é que as cinzas utilizadas provêm da queima dos ramos de oliveira ou palmas abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior.
Esta prática vincula o início da nova Quaresma ao final da Semana Santa anterior, recordando-nos que o triunfo aparente (a entrada de Jesus em Jerusalém) e sua humilhação redentora (a Paixão) são partes inseparáveis do mesmo mistério.
A transformação da palma em cinza recorda a fugacidade da glória humana.
O rito de imposição das cinzas
A bênção e imposição das cinzas acontece ordinariamente dentro da Missa, depois da homilia.
O padre, depois de abençoar as cinzas com água benta, as impõe na testa dos fiéis traçando uma cruz, ou as deixa cair sobre a cabeça conforme o costume local.
Durante a imposição, o ministro pronuncia uma das duas fórmulas autorizadas:
- “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15): Esta fórmula dá ênfase à necessidade de conversão e à adesão ativa à mensagem de Jesus.
“Lembra-te de que és pó e ao pó hás de voltar” (Gn 3, 19): Esta fórmula sublinha a fragilidade humana e a necessidade de Deus diante da realidade da morte.
Para facilitar a participação dos fiéis em cujas comunidades não haja padre que celebre a Santa Missa, a Igreja permite e recomenda a bênção e imposição das cinzas fora da Eucaristia, desde que seja feita por um diácono e durante uma Liturgia da Palavra.
As cinzas são sacramentais
Segundo o Catecismo da Igreja Católica (n. 1670), os sacramentais não conferem a graça do Espírito Santo à maneira dos sacramentos, mas pela oração da Igreja dispõem o fiel para cooperar com ela.
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O chamado à Conversão
Com a imposição das cinzas na testa, a Igreja nos convida à conversão. Não se trata apenas de uma mudança de conduta exterior, mas de uma reorientação radical do coração para Deus. Implica um morrer para nós mesmos, para o nosso orgulho, egoísmo e desejo de fazer a nossa própria vontade, que nos afastam do Senhor e nos desviam do caminho do Céu.
Jesus nos convida a segui-lo neste tempo santo, renunciando a nós mesmos e carregando a nossa cruz:
Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Porque aquele que quiser salvar a sua vida irá perdê-la; e aquele que perder a sua vida por causa de mim irá encontrá-la. Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se perde a sua vida? (Mt 16, 24-26a)
Por isso, é fundamental começar a Quaresma com um exame de consciência sincero diante do Senhor sobre todos os aspectos da nossa vida. E, a partir do que observarmos, pedir ao Espírito Santo sua assistência e graça para mudar o que Deus quer que mudemos.
A conversão implica um morrer, mas sabemos que toda morte em Cristo traz consigo uma ressurreição gloriosa com Ele. A conversão se alimenta da esperança na ressurreição. Morremos para nós mesmos para nos unirmos mais a Jesus e viver uma vida nova, renovada por sua graça. São Paulo nos anima:
Se com ele morremos, com ele viveremos. Se com ele perseveramos, com ele reinaremos. (2 Tm 12, 11-12)
Não nos desesperemos se encontrarmos muitos defeitos, pecados e erros ao nos examinarmos. Ao contrário, confiemos no Senhor, que sofreu para nos salvar e que é quem mais deseja estar perto de nós, que sejamos felizes e que vamos para o Céu para viver para sempre com Ele.
Como fazer o jejum na Quarta-feira de Cinzas?
A Quarta-feira de Cinzas é um dia de caráter estritamente penitencial, o que se traduz em duas obrigações específicas previstas no Código de Direito Canônico: o jejum e a abstinência.
Qual é a diferença? A abstinência consiste em não comer carne de animais de sangue quente (carne vermelha, aves). São permitidos peixes e frutos do mar. Estão obrigados a praticá-la todos os fiéis a partir dos 14 anos.
Por sua vez, o jejum consiste em fazer uma só refeição completa no dia. Podem-se fazer duas pequenas refeições leves que, juntas, não somem outra refeição completa. Devem jejuar todos os maiores de idade até os 59 anos completos.
A Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa são os dois únicos dias do ano em que se exigem o jejum e a abstinência em conjunto.
Existem causas que dispensam dessas obrigações, principalmente relacionadas à saúde e ao trabalho. Pessoas doentes, idosos frágeis, mulheres grávidas ou que amamentam e trabalhadores de grande esforço físico estão isentos da lei do jejum e da abstinência.
Nesses casos, os fiéis são incentivados a substituir a privação de alimento por outras formas de penitência ou ações, como a oração mais intensa ou atos concretos de caridade.
Como viver bem a Quarta-feira de Cinzas?
Podemos aproveitar a Quarta-feira de Cinzas para elaborar um plano concreto de vida espiritual para a Quaresma que começa. O importante é que os nossos objetivos sejam poucos e realistas. Devemos cultivar em nossa alma um desejo profundo e eficaz de voltar, como o filho pródigo, ao Senhor. Aqui vão algumas ideias:
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Escolher uma mortificação diária pequena e constante. Desde levantar-se com pontualidade, deixar de comer algum doce ou calar-se, se você costuma responder de maneira ríspida.
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Intensificar a oração. Aproveite para rezar a Via-Sacra, meditar na Paixão do Senhor ou nas dores de sua Santíssima Mãe. Você também pode escolher um texto bíblico e fazer a Lectio Divina, como os evangelhos da Última Ceia ou da Paixão.
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Praticar um gesto concreto de esmola. E, se você não puder por motivos econômicos, seja generoso com o seu tempo para com quem precisa de você.
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Rever quais aspectos da vida precisam de conversão e pedir conselho a um padre para crescer em alguma virtude, dominar algum defeito ou melhorar facetas do seu temperamento.
Lembre-se de que, durante a Quaresma, o Senhor concede graças particulares que reserva para este tempo litúrgico. Peçamos a intercessão da Santíssima Virgem para vivê-lo como Deus espera que o façamos. Se temos uma decisão adiada, é o momento de tomá-la. Se achamos que os nossos defeitos não têm remédio, é o momento de lutar contra eles e corrigi-los. É o tempo favorável, o tempo de salvação, tempo de misericórdia e de santificação.
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Quer viver a Quaresma com devoção? Dê uma olhada nestes artigos que poderão ajudar você:
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Qual é o significado da Quarta-feira de Cinzas?
Representa o início da Quaresma, um período de 40 dias de purificação e preparação para a Páscoa.
O que fazer na Quarta-feira de Cinzas?
É um dia de oração, arrependimento e renovação espiritual.
O que se queima para a Quarta-feira de Cinzas?
As cinzas são obtidas da queima dos ramos de oliveira ou palmas que foram abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior.
Como fazer o jejum da Quarta-feira de Cinzas?
Consiste em fazer uma só refeição completa no dia (que não seja carne vermelha). É permitido fazer duas pequenas refeições leves (de manhã e à noite), desde que juntas não somem outra refeição completa.
Quais são os ritos da Quarta-feira de Cinzas?
O rito central é a bênção e imposição das cinzas, que costuma acontecer depois da homilia.
Pode lavar o rosto na Quarta-feira de Cinzas?
Sim. Embora não haja um tempo mínimo obrigatório para ficar com as cinzas e se incentive a mantê-las como testemunho de fé, é possível lavar a testa se o decoro ou as obrigações profissionais o exigirem, sem que isso afete a validade espiritual do ato.
O que a Bíblia diz sobre a cruz de cinzas na testa?
A Bíblia não menciona especificamente uma “cruz” de cinzas, mas fundamenta o uso das cinzas como sinal de luto, humildade e arrependimento.
Qual é o significado das cinzas na testa?
São um símbolo da caducidade humana (“lembra-te de que és pó”), da condição de pecador e da súplica de ajuda a Deus.
O que o padre diz ao impor as cinzas?
O ministro pronuncia uma destas duas fórmulas: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15) ou “Lembra-te de que és pó e ao pó hás de voltar” (Gn 3, 19).
O que se responde ao receber a cruz de cinzas na testa?
Não existe uma resposta estabelecida nem uma ação obrigatória para o fiel. É um momento destinado à meditação silenciosa sobre as palavras que o ministro pronuncia. Você pode responder “Amém”.
Qual é o poder espiritual das cinzas?
As cinzas são um “sacramental”, não um sacramento. Não conferem a graça por si mesmas, mas, pela oração da Igreja, preparam e dispõem o fiel para cooperar com a graça divina e facilitam o caminho de conversão.
