Escutar a Palavra de Deus: Liturgia da Palavra

por Mariana Manzanares | Vida espiritual

No artigo “Quais são as partes da Missa e o seu significado?”, contamos a você que a Santa Missa se divide em duas grandes partes: a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística. A primeira nos introduz no mistério de Deus mediante a proclamação da sua Palavra e a meditação sobre ela. Assim como Jesus Cristo passou anos pregando antes da sua Paixão, a Igreja nos dispõe, antes da renovação do sacrifício do Calvário, a escutar com atenção as Escrituras.

Quando os textos sagrados são proclamados na Missa, não estamos escutando apenas palavras antigas, mas a voz viva de Cristo, que continua a nos falar hoje com a mesma autoridade com que pregou há dois mil anos. São Jerônimo dizia:

“Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo”.

Por isso, cada momento da Liturgia da Palavra tem um propósito claro: alimentar o nosso espírito, conhecer melhor Jesus, crescer no amor a Ele, fortalecer a nossa fé. E, acima de tudo, preparar-nos para receber o Dom precioso da Eucaristia.

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O calendário litúrgico e os ciclos de leituras:

A Igreja, em sua sabedoria, dispôs um calendário litúrgico que guia a proclamação da Palavra de Deus ao longo do ano. Esse calendário se divide em diferentes tempos litúrgicos (Advento, Natal, Quaresma, Páscoa e Tempo Comum), cada um com o seu próprio enfoque espiritual e as suas leituras características.

Para que os fiéis possam escutar e meditar grande parte da Sagrada Escritura, a Igreja estabeleceu um sistema de ciclos litúrgicos para a proclamação das leituras:

  • Domingos e solenidades: Seguem-se três ciclos (A, B e C), que se alternam a cada ano.

    • Ciclo A: Lê-se principalmente o Evangelho de São Mateus.
    • Ciclo B: Proclama-se o Evangelho de São Marcos.
    • Ciclo C: Utiliza-se o Evangelho de São Lucas.
    • O Evangelho de São João é lido em momentos-chave de cada ciclo, especialmente nos tempos fortes da liturgia.
  • Dias de semana (férias): No Tempo Comum, segue-se um ciclo de dois anos (I e II).

    • Ano I: Lê-se nos anos ímpares.
    • Ano II: Lê-se nos anos pares.

Graças a essa organização, um católico que participe regularmente da Missa durante três anos terá escutado quase a totalidade dos Evangelhos e grande parte do restante da Bíblia.

Esse sistema não é arbitrário, mas permite aos fiéis percorrer toda a história da salvação e aprofundar a fé de maneira progressiva. Assim, a Liturgia da Palavra não só nos nutre espiritualmente em cada Missa, mas também nos introduz em um caminho de formação contínua na Palavra de Deus.

A Liturgia da Palavra é composta por:

1. Primeira Leitura

Primeira leitura

O Evangelho, texto principal da Liturgia da Palavra, deve ser precedido pelos escritos dos profetas enviados para anunciar a vinda do Messias. São Paulo o explica deste modo:

Muitas vezes e de muitos modos, Deus falou outrora aos nossos pais, pelos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou o universo. (Hb 1, 1-2).

Deus não mostrou de uma só vez todo o seu poder e bondade, mas o fez progressivamente. O Antigo Testamento ilumina o Evangelho. Em seus personagens podemos ver prefigurações de Cristo, porque neles vemos antecipações de Cristo e da sua obra redentora.

A Primeira Leitura sempre tem relação com o mistério, com a festa ou com o Evangelho do dia. Desse modo, o Evangelho aparece como cumprimento da Lei e dos Profetas. 

Esta leitura termina com este pequeno diálogo entre o leitor e os fiéis. 

℣. Palavra do Senhor.
℟ Graças a Deus. 

Tome consciência da sua resposta, para não repeti-la mecanicamente. Nela aclamamos, festejamos a Palavra de Deus que se fez presente. Louvamos a Deus pela sua mensagem. 

2. Salmo

Salmo

O canto do salmo é uma consequência quase espontânea da ação divina sobre o coração humano que escutou a Palavra de Deus. A graça bate à porta e o fiel responde com um canto. 

Os salmos ajudam a compreender melhor as leituras. Permitem dimensionar a solenidade da celebração, o tempo litúrgico que se vive e o sacrifício eucarístico. Expressam os sentimentos que os textos sagrados devem despertar nos ouvintes. Nesse sentido, servem para meditar na Palavra de Deus. 

São entoados de modo responsorial. O povo repete um refrão, que é como o leitmotiv do salmo, isto é, o tema recorrente, e um integrante do coro canta os diversos versículos. 

Preste atenção ao conteúdo dos salmos e faça deles uma oração pessoal, rezando-os enquanto são recitados ou cantados. 

3. Segunda Leitura

Segunda Leitura

A segunda leitura é tirada das Epístolas do Novo Testamento. Essas epístolas são cartas escritas pelos apóstolos (São Paulo, São Tiago, São Pedro e São João)

A segunda leitura é escolhida cuidadosamente para que se relacione com a primeira leitura e com o tema do Evangelho do dia.

O seu objetivo principal é iluminar a mensagem da primeira leitura a partir da perspectiva do Novo Testamento. Mostra como a fé cristã encontra o seu fundamento nas palavras e obras de Jesus e na experiência da Igreja primitiva.

A Segunda Leitura nos facilita a compreensão das promessas e prefigurações do Antigo Testamento.  Também nos exorta a viver de acordo com os ensinamentos de Cristo. Por último, recorda-nos a esperança cristã na vida eterna. Anima-nos a perseverar na fé, com o olhar voltado para o Céu. 

Termina com o mesmo pequeno diálogo entre o leitor e os fiéis da Primeira Leitura. 

℣. Palavra do Senhor.
℟ Graças a Deus. 

Com esta resposta, a assembleia dos fiéis honra a Palavra de Deus, recebida com fé e com espírito de ação de graças.

4. Canto do Aleluia

Aleluia

O canto do Alleluia prepara imediatamente a proclamação do Evangelho. Essa palavra hebraica se traduz como “louvai a Javé”. Tem um significado de ação de graças pelos benefícios recebidos de Deus em tempos passados, especialmente a salvação.

Esse cântico prefigura o cântico eterno dos santos, que louvarão a Deus pela sua obra consumada no fim dos tempos. Desse modo, a liturgia que se realiza na terra se associa à liturgia celeste, e ambas se unem na ação de graças pela Redenção. Como é uma antecipação das alegrias do céu, deve ser cantado com alegria. 

Tanto o padre como o diácono que leem o Evangelho podem entoar um versículo bíblico para acompanhar o canto do alleluia. 

Neste momento da Santa Missa, em ocasiões muito especiais, podem ser cantadas as sequências. As mais conhecidas são o Stabat Mater da Sexta-feira Santa, o Precônio Pascal, a sequência de Pentecostes e a de Corpus Christi.

5. Evangelho

Evangelho

A última leitura da Liturgia da Palavra é o Evangelho. Ele tem o lugar mais importante entre elas. E é a mais próxima do sacrifício eucarístico.

Esse texto só pode ser lido por um diácono ou pelo celebrante. Se o leitor é um diácono, pede uma bênção especial ao padre, que lhe diz:

O Senhor esteja em teu coração e em teus lábios para que possas anunciar dignamente o seu Evangelho.

Se é o padre quem anuncia o Evangelho, ele se prepara interiormente, profundamente inclinado diante do altar, repetindo as palavras do profeta Isaías.

Ó Deus todo-poderoso, purificai-me o coração e os lábios, para que eu possa anunciar dignamente o vosso santo Evangelho. 

É conveniente que também os fiéis se preparem, pedindo a graça de ouvir com docilidade a Palavra de Deus e de aproveitar os seus ensinamentos. Peça ao Senhor que purifique o seu coração distraído pelas agitações do mundo e que limpe os seus lábios manchados por palavras vãs.

Quando o padre ou o diácono, depois da sua preparação interior, se dirigem ao ambão, são acompanhados, nas Missas solenes, pelo incenso e por dois acólitos que levam velas acesas. O incenso simboliza o “bom odor de Cristo” que se irradia do Evangelho. As velas, por sua vez, representam a luz do mundo que se irradia a partir da Palavra de Deus.

O padre ou o diácono saúda o povo com uma exortação aos fiéis para que se unam à sua oração. Além disso, chama a atenção deles para a importância do que vem a seguir. A expressão “O Senhor esteja convosco” quer dizer que a glória de Deus esteja em vocês para que os transforme em templos vivos. O povo deseja que o Espírito Santo habite no ministro do Evangelho, já que o celebrante invoca a terceira pessoa da Santíssima Trindade para oferecer o sacrifício.

℣. O Senhor esteja convosco.
℟ Ele está no meio de nós.

Antes de começar a leitura, o ministro e o povo se persignam, fazendo o sinal da cruz três vezes. Na cabeça, indicamos que afirmamos com o nosso entendimento a doutrina contida na Palavra de Deus que vamos escutar. Depois, na testa, comprometemo-nos a proclamar essa doutrina com as nossas palavras. Por último, no peito, demonstramos que desejamos guardá-la fielmente em nossos corações.

Os santos ensinam que, ao nos persignarmos antes de escutar o Evangelho, podemos afugentar o demônio , que se empenha em nos roubar a semente da Palavra de Deus.   

℣.Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo...

℟Glória a vós, Senhor.

Diante da proclamação do Evangelho, o povo responde aclamando Jesus Cristo, de pé, porque o Evangelho é a sua própria voz aqui e agora na Igreja. Por isso se dirige a Ele mesmo.

Em seguida, o padre incensa o Evangeliário e começa a sua leitura. 

O Evangelho deve ser escutado de pé. Esse gesto simboliza a prontidão para defender a fé ou para agir de acordo com a mensagem escutada. Somos servos diligentes, preparados para servir a Deus, que nos fala em seu Filho. Estar de pé também é um sinal de respeito e nos ajuda a prestar atenção.

Os fiéis devem estar dispostos a escutar o Senhor. Quando ouvimos o Evangelho, estamos ouvindo novamente o próprio Cristo falar. O seu Sagrado Coração se abre para nós e se entrega a nós como alimento espiritual em suas palavras e obras. Peça a graça de que Ele acenda no seu coração um desejo intenso de recebê-lo logo como alimento físico na Eucaristia.

Terminada a proclamação, dá-se este diálogo entre o povo e o ministro, diferente do da Primeira e da Segunda Leitura.

℣.Palavra da Salvação.

℟Glória a vós, Senhor.

Quando termina a leitura do Evangelho, agradecemos ao Senhor por nos anunciar o seu Evangelho pela boca do ministro. Essa exclamação ressalta que o Evangelho é o ápice da Revelação, que Deus disse tudo por meio do seu Filho, que é o seu Verbo. Ela nos recorda as palavras de São Pedro:

A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna. 

O Evangelho deve inflamar de amor os nossos corações. 

Antes de começar a homilia, o padre ou o diácono beijam o Evangelho e rezam esta breve oração:

Pelas palavras do santo Evangelho sejam perdoados os nossos pecados.

Certamente, o Evangelho deve converter os nossos corações, assim como converteu o mundo inteiro ao cristianismo. Deve destruir o pecado no plano social e individual. Supliquemos ao Senhor a graça de uma sincera conversão e de um firme propósito de não mais ofendê-lo.   

6. Homilia

Homilia

Na Homilia, o padre prega o mistério de Cristo, especialmente o mistério pascal. Porque, em torno desse fato central, gira toda a história da salvação e todo o conjunto das verdades de fé. Na Constituição sobre a Liturgia do Concílio Vaticano II afirma-se:

A pregação é uma proclamação das maravilhas realizadas por Deus na história da salvação, ou seja, no mistério de Cristo, que está sempre presente e operante em nós, sobretudo na celebração da liturgia. 

O padre explica os fatos da história da salvação e os aplica à atualidade, mostrando como

Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura. (Lc 4, 21)

Em segundo lugar, prega a doutrina que decorre do texto proclamado. Por último, extrai as consequências que daí se seguem na ordem moral. 

Na homilia expõem-se, ao longo do ano litúrgico, a partir dos textos sagrados, os mistérios da fé e as normas da vida cristã. 

O Espírito Santo fala por meio do celebrante, instruindo-o para que ensine convenientemente. Também, move o coração dos ouvintes para que escutem com gosto a Palavra de Deus e nela se deleitem. Além disso, age na vontade dos fiéis para que se disponham a cumprir as exigências da Palavra de Deus e ajam impulsionados por ela. 

A homilia tem como objetivo aprofundar a fé, encher de alegria e admiração pela beleza da mensagem evangélica. Em segundo lugar, mover à conversão, transformando interiormente as almas por meio da caridade e do abandono dos vícios. Por último, conduzir à comunhão, isto é, a unir-se cada vez mais intimamente ao Senhor numa comunhão de afetos, critérios, doutrina e amor. Essa Comunhão se concretizará no momento em que receber Jesus Sacramentado. 

Antes da homilia, aproveitemos alguns instantes para rezar pelo pregador. Peçamos para ele a graça de ser verdadeiramente outro Cristo. Ele não só deve pregar com fidelidade aos ensinamentos de Jesus, mas também com um coração semelhante ao do Senhor. Não se esqueça de que ele é um mensageiro e instrumento de Deus e de que, na sua pregação, se for dócil ao Espírito Santo, pode fazer muitíssimo bem às almas.

Procure escutar a homilia com atenção. Deus pode falar a você por meio do padre. 

7. Creio

Creio

O Creio é o símbolo da nossa fé. Sintetiza todos os dogmas católicos. Estrutura-se em três grandes partes: a confissão de fé em Deus, nosso Criador, em Cristo, nosso Salvador, e nos meios de salvação, por obra do Espírito Santo. 

É uma afirmação fervorosa, por parte dos fiéis, da Palavra de Deus anteriormente escutada. Continua e resume a pregação do padre na homilia. 

A palavra Amém encerra o Creio. Por ela dizemos: “sim, tudo isto é verdade, está firme e assim o professo”. Creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Creio nas verdades de um Deus Pai criador, nos mistérios de um Deus Filho Redentor e nas graças inefáveis de um Deus santificador. 

Quando rezamos esta oração, devemos fazê-lo com um espírito tal que a fé que afirmo se encarne no meu coração e me comprometa a professá-la com os meus lábios e a praticá-la sinceramente nas minhas obras. 

7. Oração dos fiéis

Oração dos fiéis

A Liturgia da Palavra termina com a oração dos fiéis. O padre celebrante dirige as preces da cadeira presidencial. Ele mesmo as introduz com uma breve monição, na qual convida os fiéis a rezar:

Irmãos: dirijamos a nossa oração a Deus, Pai todo-poderoso, que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade.

Nela, rezamos pelo Papa, pelos bispos, pelos governantes e pelas diversas necessidades da comunidade cristã. 

Por esta oração, o povo de Deus exerce o seu sacerdócio batismal, oferecendo súplicas ao Senhor pela Igreja e pelo mundo. O povo, de pé, exprime a sua súplica, seja com uma invocação comum depois de cada intenção, seja rezando em silêncio. 

O celebrante conclui com uma oração na qual eleva as súplicas ao Pai Eterno: 

Deus de amor e misericórdia, acolhei as nossas súplicas e, segundo a vossa vontade, concedei-nos o que com fé vos pedimos. Por Cristo, nosso Senhor. Amém

Para refletir sobre a Palavra de Deus na liturgia:

Não deixe que a Palavra de Deus passe despercebida na sua vida. Aprofunde-se nas Sagradas Escrituras, medite-as e abra o seu coração para ser transformado.

A Liturgia da Palavra é um momento essencial da Missa, em que Cristo nos fala e nos ensina a segui-lo. Não é apenas um preâmbulo da Eucaristia, mas um verdadeiro alimento para a nossa alma, que nos prepara para receber com fé o Corpo e o Sangue do Senhor.

Graças à organização do calendário litúrgico e dos ciclos de leituras, a Igreja nos oferece um itinerário espiritual que nos permite conhecer e aprofundar a Sagrada Escritura. Cada vez que participamos da Missa, lembremo-nos de que é o próprio Cristo quem nos fala. Que possamos, como Maria, guardar e meditar em nosso coração tudo o que o Senhor nos diz, para que a sua Palavra dê fruto abundante em nós.

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Por que é importante escutar a Palavra de Deus na Missa?

A Palavra de Deus é essencial na Missa porque alimenta espiritualmente os fiéis, fortalece a fé e prepara o coração para a Eucaristia. Na Liturgia da Palavra, os fiéis escutam a voz de Deus e a ela respondem com fé.

Como é a estrutura da Liturgia da Palavra?

A Liturgia da Palavra consta de várias partes: primeira leitura (Antigo Testamento), Salmo responsorial, segunda leitura (Novo Testamento), Aleluia ou Aclamação ao Evangelho, Evangelho, homilia, Creio e oração dos fiéis.

Qual é a relação entre a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística?

A Liturgia da Palavra prepara os fiéis para receber a Eucaristia. Primeiro, Deus fala ao seu povo por meio das Escrituras e, depois, na Liturgia Eucarística, Cristo se faz presente no pão e no vinho consagrados.

Como posso viver melhor a Liturgia da Palavra?

São Francisco de Sales aconselha:

Desde que o padre sobe ao altar até o Evangelho, considere simplesmente e em geral a vinda de Nosso Senhor ao mundo e a sua vida nele.

Do Evangelho até o fim do Creio, considere a pregação do Salvador, declare que quer viver e morrer na fé e na obediência à sua santa palavra e na união da Santa Igreja Católica.